terça-feira, 20 de agosto de 2013

Noites de quimera - último excerto

A noite passava e António via. Via com toda violência que a visão poderia conter.
No céu vislumbravam-se agora os primeiros sinais da alvorada, raios de sol parecidos com cristais iluminavam os corpos sem vida que descansavam ao lado do escultor, bem como os cadáveres que se encontravam lá no fundo do abismo, que o separava do sol.
Talvez fosse a beleza dessa manhã, talvez fosse apenas um rasgo de loucura, mas sobreposta a angústia de ter conduzido os seus amigos à morte e ao desespero por ter emparedado Margarida, sentia uma estranha glória, um sentimento de força surda. E como um heraclítico vencedor olhou pela última vez o horizonte e mergulhou orgásmicamente nos braços assassinos das montanhas de Quimera.

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