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terça-feira, 20 de agosto de 2013

Noites de quimera - último excerto

A noite passava e António via. Via com toda violência que a visão poderia conter.
No céu vislumbravam-se agora os primeiros sinais da alvorada, raios de sol parecidos com cristais iluminavam os corpos sem vida que descansavam ao lado do escultor, bem como os cadáveres que se encontravam lá no fundo do abismo, que o separava do sol.
Talvez fosse a beleza dessa manhã, talvez fosse apenas um rasgo de loucura, mas sobreposta a angústia de ter conduzido os seus amigos à morte e ao desespero por ter emparedado Margarida, sentia uma estranha glória, um sentimento de força surda. E como um heraclítico vencedor olhou pela última vez o horizonte e mergulhou orgásmicamente nos braços assassinos das montanhas de Quimera.

Noites de quimera - excertos do capítulo 99 e meio

António encontrava-se agora na zona histórica da cidade. Candeeiros amarelos, dos dois lados da rua, iluminavam casas de recortes sinuosos esculpidos directamente nos semblantes inorgânicos dos edifícios recentemente restaurados pela Câmara. Era como um implante de colagénio numa idosa de  oitenta anos, número este que era, aproximadamente a média de idades dos habitantes daquela zona.
Havia agora  saído da zona histórica e estava em casa de Margarida Gomes, que era um daqueles prédios degradados característicos dos subúrbios de qualquer cidade. Entrou pelas traseiras e, em encontrando a porta entreaberta, penetrou cautelosamente no interior do apartamento, tentando não emitir qualquer tipo de ruído. As luzes estavam apagadas. Era-lhe perceptível o seu próprio batimento cardíaco, os seus passos, a sua respiração e, apesar de absurdo, António tinha sensação de conseguir até ouvir a sua agitada circulação sanguínea. Dirigiu-se, tacteando as paredes para o quarto de Margarida . A porta estava aberta e a luz acesa. Adivinhava-se o corpo sibilino de sua amante por entre os lençóis manchados de sangue e vómito. O escultor dirigiu-se então,  desesperado, em direcção àquela massa de carne que com uma respiração rápida, mas fraca, hiperventilava e cuspia laivos salivarmente sanguinolentos. Nesse mesmo instante, ensaiou um gesto de agonia e em seu semblante desenhou-se, na vertical, uma linha irregular quer lhe rasgava a pele. Era como se algum ser invisível lhe apartasse a epiderme com uma lâmina de má qualidade.
António olhava agora, mais com atenção do que com medo. Um grito agudo rompeu o ar e rasgou ainda mais a pele de Margarida Gomes. De seu couro cabeludo emergiu, à medida que a pele deslizava em direcção ao chão, um rosto pálido ligeiramente semelhante ao daquela rapariga ingénua mas viciosa. Qual réptil despojando-se de sua velha indumentária, ela gemia de prazer e dor, deixando a descoberto um corpo viscoso e reluzente, sorrindo mais de alívio do que de felicidade, enquanto olhava António Seco olhos nos olhos. Este beijou-a, deitou-se a seu lado e adormeceu naqueles braços que também temia.
Acordou por volta das seis horas da madrugada. A alvorada cobria todo o cenário de cinzentas nuvens tumultuosas que ameaçavam cometer um suicídio em massa e precipitar-se das alturas para, depois de mútuas cópulas eléctricas e de saturarem o ar com um intenso cheiro a enxofre fazerem, com sua morte, felizes os pássaros, que em júbilo entoariam melodias dignas de Mozart , inspiradas na ionização negativa que a chuva proporcionaria àquele pequeno espaço da imensidão do mundo.
Agora sentia-se em paz. Olhou à sua volta, os lençóis estavam alvos como a própria pureza em si, não havia qualquer vestígio de sangue ou vómito, Margarida cantarolava na cozinha, como era seu hábito entrando, posteriormente, no quarto com dois cafés bem fortes e um sorriso nos lábios. Ingeriram em silêncio aquela infusão cafeínica e reconfortante.


 ---------------------------------------(aqui havia uma parte que metia vampiros e twilights e o catano)--------------


--------------------agora já não há! ------------------




Na manhã seguinte, apesar de estar um pouco ressacado, António experimentava, pela primeira vez em meses, uma sensação de paz. Tinha sido uma noite em cheio. O frenetismo do álcool e do jazz e dos saxofones-luxúria e das vozes que ouvia e das luzes que via e da embriaguez filosófico-existencial de  uma conversa que não recordava, haviam-lhe incutido uma arrítmica e acelerada percussão cardíaca que lhe tirava o sono e o excitava sexual e artisticamente. A escultura que criara havia apaziguado sua inquietude, a posterior presença de Margarida também.
O sol penetrava por entre as frestas das janelas cuidadosamente fechadas e iluminava selectivamente, os subtis lábios de sua musa que, por vezes, se entreabriam e pronunciavam sons ininteligíveis delatores da noite de excessos aos quais também ela havia sucumbido.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Noites de Quimera - I



                                                                                                                                                                    Capítulo I  / X


A noite era escura; mais escura do que o habitual; mais medonha do que o habitual; mais sombria do que o habitual. Seu hálito quente e húmido envolvia as pedras da calçada, os bancos de jardim, as árvores enrugadas e até os velhos olhares cansados dos bêbedos noctívagos, que cambaleavam pelas ruas e vomitavam nas valetas. Foi nessa noite exasperante que aquela voz inquieta, que se esconde nos subterrâneos encefálicos de todos os seres humanos chamou, pela primeira vez, António Seco; um escultor em início de carreira que, apesar do anonimato a nível nacional, gozava de alguma popularidade na sua terra-natal, a recém-denominada cidade de Quimera.
Estávamos em 1999 e esta pequena e asfixiante localidade não fugia àquela velha inquietude, que caracteriza qualquer momento de transição; tal como um novo regime,  uma nova moeda, um final de século, ou até um final de milénio.
Mais do que  qualquer outra coisa, António Seco era um observador. Talvez as suas esculturas fossem o reflexo de uma percepção exacerbada pela avidez de estímulos, talvez fossem apenas uma forma de fugir à rotina, ou talvez fossem apenas uma forma de rotina.
Ao procurar o cansaço através de uma clandestina caminhada nocturna, António Seco ouviu um silvo; um sussurro quente, doce e rouco que lhe era mais do que familiar; era já um frémito de sua voz, uma reminiscência de sua memória maltratada por lentas mussitações e melancólicas vozes sensuais, que o atraiam e o impeliam a beijar aquele som adocicado de carne, férrea de sangue e de promessas. Obsessões de seu instinto, murmúrios de seu peito, medo versus atracção. União com a noite e com a solidão do nada e do desconhecido.

Aka Manah

Deambulava pelas ruas manchadas de sangue, como se à torrencialidade dos pensamentos se impusesse um travão e como se esse travão fosse subjugado pelo atrito de uma força maior. Não havia tempo nem espaço, apenas o martelar ensurdecedor, cíclico e persistente de condicionantes transmudados em determinantes de um todo.

Vejo Asco e ódio. Vejo flashes afiados como fios de garrotes. Vejo asfixia. Sinto escuridão.

Cheiro sabores de grito e tortura presos em armas agora decadentes que moraram na minha mão. Últimas palavras? - Não, nunca se ouvirão!

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Dorian Gray



Emerge da patética apatia um ser parasitário, infestante, endoplasmático, viscoso , hegemónico, emoliente de si próprio  mas auto-insuficiente. Todo o monstro precisa de um escravo ou de um criador, porém não conheço nenhuma história, narrativa ou alegoria onde aquele que desempenha o papel divino não acabe morto pelas garras da fera.

sábado, 20 de julho de 2013

Balada do Diabo

cheio de Lata... Aqui vai; camé hamé háaaaaaaaaaa:   


sábado, 23 de março de 2013

Livre!



Deixei finalmente de procurar ordem no caos. Tornei-me imune; não há patogenia social que neste momento me consiga causar grandes alterações sistémicas. Não há um mínimo motivo mordente para a circense crueldade, para a iniquidade, para a violência, humilhação, exploração, crime, perdão ou redenção; há simplesmente algo precioso que se dissolve nas manhãs humedecidas, perdura nas noites perdidas, passeia pelas tardes empoeiradas. Algo que recupero, revivo, exponencio ao quociente do mais ínfimo que sou: A Liberdade! Agora sim, estou Livre, agora que sabem que não lhes pertenço nem nunca pertencerei!





segunda-feira, 11 de março de 2013

Canção de escravos + Chibos da Pide

Canção de escravos +  Chibos da Pide

Apeteceu-em berrar!





Letra:

Vai, segue o teu caminho
p'ra sempre desventurado
seca as gotas de suor
seca o sangue derramado

e aparece-te o demónio com mais duas concubinas
p'ra aumentar seu património
pô-las a render nas esquinas
mas a guita nãso chegava
nem pra viver 30 vidas
criou uma legião de prostitutas lenocidas
com ladrões e homicidas

veio o filho do diabo
com algemas e cadelas
quer fazer de ti seu escravo
não te dês por bagatelas

diz mentira quem decide

por que verdade vais viver
são meros chibos da PIDe
estão prontos pra te vender


suportaste mais uns quantos
chafurdaste em podridão
eles não podem roubar
o que te vai no coração

és mais um homem que caiu
aos pés de um pequeno deus
não contente com teu sangue
pediu-te sangue dos teus

transforma essas mãos em lança
não tenhas medo de matar
fura o diabo na pança
mete essa besta a chorar

.....




segunda-feira, 30 de julho de 2012

O Licor


Enrugaram-se meus ossos e minha pele tornou-se esponjosa, na fatigante busca do elixir. Uma taça surgiu no horizonte, permanecendo lá, mas sempre inatingível. Era uma miragem!
         O nosso comandante havia bebido todo o rum, porém continuava a dar ordens sensatas. “Lançai a âncora!”
         E Alá apareceu num oásis que não existia. Bebeu o doce licor materializando a miragem num sonho ateu.
         Odaliscas bamboleavam o ventre despido e ligeiramente desenvolvido, exalando odores parecidos com o cheiro a grãos de café dos lupanares de Marrocos. Lembro-me de quando lá vivi... Comia fruta fresca e bebia vinho de amora. Contribuía para a produção do “secretliqueur”, extraindo toda a frutose doa abacates recém colhidos e adicionando-lhe leite de cabra, adicionando, em seguida, à mistura, extracto de absinto e etanol sifilítico.
         Rezava a lenda que um conjunto de donzelas provenientes da mais elevada casta social local, dançavam nuas à luz do luar e de uma fogueira amistosa; no solstício outonal, quando descobriram pela primeira vez a receita.
         O extracto era colhido por suas mãos em concha, sendo posteriormente depositado num largo recipiente onde jaziam amoras silvestres, alperces, figos e leite de cabra, sendo a mistura esmagada pelos corpos nus das ninfas até a mistura começar a fermentar. Posteriormente, o preparado era destilado sob o atento olhar de dois xamãs que haviam  chegado devido ao naufrágio do navio negreiro que os havia capturado. Os dois xamãs olhavam atentamente a mistura, entrando num transe quase mortal.
         Reza ainda a lenda que uma das virgens se apaixonou pelo mais poderoso rei da região, beijando-o loucamente, na cerimónia. O monarca, devido ao seu estatuto, repudiou-a e ordenou o seu exílio. Sentindo o desprezo que povoava o olhar de seu amado, a princesa, mutilou-se repetidamente com um dente de tigre caindo no recipiente onde descansava a mistura. Seu sangue fundiu-se, numa osmose etílica, com a bebida; Tendo sido esta uma das colheitas mais apreciada pelo rei.
         Eu acredito que tenha sido verdade.
         O nome era “secretliqueur”, em tempos foi amor, até que um ditador francês assassinou uma bela princesa que passeava num desses bosques que há pelo deserto e matou todo o povo marroquino de desgosto. Terá sido este o ano em que nasceu a humanidade?
         Encontrámos  a primeira miragem do elixir num sonho ébrio desse licor: era azulado e ao mesmo tempo um gás incolor de solidez fascinante, seu coeso mistério mitocondrial e pulsante cobria-nos de medo e cada gesto era pensado , cada ideia inconclusiva.
         Uma odalisca acariciou-se, beijou-me no canto da boca e sugeriu-me  a direcção nordeste. Era meia-noite quando chegámos a um ponto que nunca poderia existir no sistema cartesiano. Experimentámos o fellatio mental da última gota do licor e a esfinge ao longe sorriu-nos, mostrando-nos cumplicemente a resposta a todos os seus enigmas.
         «Meus amigos» - disse eu - «Meu comandante, chegámos a bom porto!» e eis que surgiu em minha mão o tão afamado Graal, transbordando o tão ansiado elixir feito de vácuo. Preparei-me para bebê-lo, contemplando com um ar sereno e terno todos os meus amigos!
         No dia seguinte acordei sozinho suando a mansarda de meus pensamentos.




domingo, 17 de junho de 2012

Cantiga do Cão




Já estou feito num 8
já nem dobro bem a espinha
Ofereceste-me um biscoito
fizeste-me uma festinha

mas de festas já estou farto
chegaste-me a roupa ao pelo
tu tens pele de lagarto
deixa lá de ser camelo

já estou farto de ser cão
passar a vida a ladrar
estou farto de assim latir
ter essa trela a puxar

já só quero a Liberdade
estou cansado de uivar
para lá esse chicote
tu não me consegues vergar/matar/calar

Já estou feito num 8
já nem dobro bem a espinha
Ofereceste-me um biscoito
fizeste-me uma festinha


mas eu quero a Liberdade
já estou farto de amparar
amparar esse teu jogo
como  chicote a vergastar

já só quero a Liberdade
tenho de a libertar
tu nunca serás meu dono
amanhã vou-te ferrar











Chuta as pedras do caminho

Chuta as pedras do caminho

 

 

 



terça-feira, 12 de junho de 2012

Fado da Guitarra Empenada



Fado da Guitarra Empenada


Nova letra do Óscar:



fado da guitarra empenada ( castelhano das docas)

trago mi bandera blanca
más di rojo mi intiendo
trago el sangre que mi corre
logo yo que no lo vendo
tieno vagas em mi fonte
em mil ganas di vivir
lo que viena á defronte
qui si prepare a morir



si mi alma ajoelhada
inda viene a estrebuchar
ti prepara para a luta
que a no la vás ganar
no mi rindo e no mi vendo
a la muerte vou sorrir
trago mi bandera blanca
tens que de rojo a tingir




Letra Antiga (algo a reaproveitar para outra eventual canção) :

Nuvens plumbeas povoavam céus de medo
não é tarde nem é cedo Disseram à multidão
com a mão direita no ar
empunhando armas brancas e alfaias
pra te arrancar o coração

esperam que caias num leito sujo
emparedados pelo asco
enebriados por um faustoso banquete
quando viram que ruia o palacete
e agora pra viver
era matar ou morrer
pois
a única coisa garantida
era um fato por medida
para usar no fim da vida

tenho armas d'arremesso à minhas esquerda
e trago às costas um canhão
de pau
feito pelo meu avô que caiu morto
quando não teve mais sangue pra lhes dar

nunca devias ter saido da caverna nem gritado aos 4 ventos
que a vida não é eterna

e agora vão-te comer

já tens malta a preparar banhos maria condimentos e feijões e uns coentros
caldeirões a fervilhar
lá estão todos a cantar arpas na mão
e sacas do teu arpão para 4 trespassar e cais no chão
em posição comedida
pois a única coisa garantida é o fato por medida
para usar no fim da vida

Esboço do fado:

Download do Fado da Guitarra empenada - Clique para Sacar!


sábado, 19 de maio de 2012

Rasgo de Insanidade - Parte II



A existência esgota-se na anomia dos momentos e na permanência de toda a fugacidade que negligentemente infecta a renascença cerebral do fleumático sangue.

Imagino que o presente existe, composto por segmentos não lineares do tempo e persisto neste pensamento.

Vagueio pela madrugada fora e trespasso a noite como se sangrasse meu próprio purulento coração com o punhal da divagação incoerente. Anestesio-me pelos sons longínquos e pelo pulsar da escuridão. A poeira humedecida pelo limbo da humidade fustiga-me os lábios e mata a sede que já não tenho. Urina, incenso e pão acabado de confeccionar emprestam ao ar seus odores de etílicos que me desinfectam a mente e o corpo que se translada agora para as catacumbas da acalmia insone.

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A mente dirigia-se para locais incertos, indefinidos como a certeza da existência da excrescência granítica que me calcinava o raciocínio e me perturbava a vontade.

A estrada evaporava no vento gélido da noite e as árvores eram silhuetas, braços estendidos ao alto, clamando por uma divindade, por uma transcendência, por uma osmose com os céus e com a terra e com os vultos negros e luminosos dos automóveis, que durante lapsos temporais me traziam de volta à crueza do mundo material.


O transe de ritmos que simulam o cardíaco e o circadiano paralelamente, melodias que se encontram e fazem prescrever o crime de amar; mortos que nos aconselham e mais uma vez o ódio a esta pele, nosso verdadeiro eu, que nos impede de abraçar o oxigénio que mais poderia ser gás inerte ou um frasco de éter numa qualquer faculdade de medicina. As articulações emitem sons sincopados em simbiose com a morte sempre presente por motivos indeterminados. O timbre do infinito acrescenta ao tédio do frenetismo interminável uma ondulação hormonal que faz lembrar a ausência de desejo, característica das depressões nervosas, bem como do consumo abusivo de determinado tipo de opiáceos.

Violência não concretizada e magma na alma, istmos de incoerência, discrepâncias de sentidos, intolerâncias visuais, o meu odor nauseabundo e horas e horas e minutos e tempo que flui no vazio de não querer estar aqui ou no aqui que existe quando não estou aqui. Aqui! Onde o Corpo - Pedra está.

A escatófaga epiderme assimila o fumo do ar e assume o seu odor como forma de ser dificilmente identificável no seio da harmoniosa pessoa-humanidade que é o conglomerado de vazios; buracos espaço-temporais, sem paixão, sem vontade, sem insanas reacções nucleares, sem cisões atómicas no espírito, sem reagentes do eu. Simplesmente toalhas absorventes e perfumadas que se podem encontrar em qualquer hipermercado.

Ainda não. Ainda não é hora de explodir num último grito e regurgitar todo o saque que fizemos na nossa última investida aos navios fantasma que povoam mares inavegáveis devido aos recifes de coral que emergem de milha em milha e submergem a medo, para nos fazer lembrar a nossa própria covardia; covardia esta sempre camuflada por grandes feitos e constantes blasfémias e desafios ao fim, frequentes desafios à casa-máquina-prisão que nos restringe a quem somos.

Crucificar o amor para que ele nos sobreviva. Esquecer a ilusão para que ela nos enlouqueça, perverter a sanidade para que ela nos abandone.

Divagações semi-oníricas sem significado aparente contaminam a vigília e o sono ausente acompanha todo o meu dia.

Sentir novamente a presença. A névoa esvai-se como o sangue que flui numa erupção de sentidos.

Niágara desagua em mim, cascatas de estalactites trespassam minhas omoplatas e sinto um frio molhado em todos os meus poros. Minhas circunvoluções cerebrais mudam radicalmente de sentido e eu sinto-as mudar.


Palmilho esta cidade que não é minha, acompanhado pelo deslumbramento de minha solidão; aquela solidão penosa e prazenteira que só os verdadeiros homens conhecem. Reconheço nas curvas sinuosas das ruas trilhos secretos que sei já ter percorrido, embalado por qualquer sentimento que não este, num qualquer momento que não o presente, sendo o passo seguinte o limite do futuro.

E procuro!

Tenho a sensação de que tudo se perdeu algures num tempo inexistente, num delírio qualquer de um louco ébrio que caminha, apenas porque o pânico o impele a fugir de um monstro inexistente.

Vivo no olhar vazio de alguém que ouve minhas palavras e no silêncio frio desta noite que não me ama. Morro na chama da confusão que me impede de reordenar as estrelas e formar minhas próprias constelações, alfabetos intergalácticos, símbolos matemáticos de sensual solidez arrepiante. Perco-me nas ondas fosforescentes que rebentam contra meu corpo e na iridiscência orgástica que percorre minha pele com seus dedos mecânicos e inorgânicos, fustigantes como as mãos de mil amantes adoradas, como fadas ofegantes que me trucidam numa estrada, feitas de carne e de nada.


Sou agora hospedeiro das gotas de nevoeiro, das ruas desertas, povoadas por frases incertas, proferidas por fantasmas inacabados.






Rasgo de Insanidade - Parte I



As árvores pareciam sombras celestes, vapores sólidos que emanavam do solo pela manhã. Contemplava o nascimento do dia, o céu ainda nubloso através do vidro fumado da retina. O dia, que tal como as células de nosso corpo, se sucede e efectua as mesmas viagens num pequeno grande ciclo, prisioneiro de uma infinidade de ciclos imensos que se sucedem, precedem, antecedem e invariavelmente se repetem. Caminhava por entre o labirinto de minhas circunvoluções cerebrais, fechado no cativeiro da redundante da existência, enclausurado na chaga purulenta de uma ferida macrocosmico-biliar.


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O sangue transforma-se em oxigénio líquido e, liquidado pela gélida temperatura do cosmos, solidifica, edificando uma estrutura ramificada como as árvores vestidas pelos flocos de neve que me sepultam. Exulto de raiva e dispo-me da carne que se despede de mim explodindo em bocados e causando graves danos nas viaturas que se encontram estacionadas metros à frente. Os ossos evaporam-se e os alvéolos pulmonares paralisam. Vesícula biliar fungiforme e coração poroso de urânio empobrecido.



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O momento presente é aguardar que o sonho passe e edificar um complexo turístico dedicado às artes circenses. Deglutir, defecar, dormir e definhar.

Perceptir as coisas na homeopatia do tempo, onde o passado, o presente e o futuro se fundem na alucinação, na imaginação, no sonho e no desejo. Ver o visível e sonhar o impossível horas depois da imortalização dos acontecimentos na fita magnética da existência.

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Um coliforme fecal de características macroscópicas flutua no rio e tudo isto se passa no microcosmos de bactérias que o habita.




domingo, 13 de maio de 2012

PEDRO BARROSO-LONGE DAQUI(II)





A raposa e o Caçador

olá raposa matreira/não me ferras mais o osso/ó cadela arruaceira/ tens coleira ao pescoço/não pensei ser caçador/nem nunca pensei matar/ mas raposinha matreira/ já estou pronto a disparar/tenho facas n'algibeira/ p'ra se o tiro me falhar/ é demais a vida inteira/ com teu dente a ferrar/ E se as facas me roubares/ e já nada mais houver/tenho mãos nuas despidas/ para o que der e vier...

sexta-feira, 16 de março de 2012

A Parábola do meteorito + Canção 30 Dinheiros



Fotos da autoria do meu amigo Filipe Seco, do tempo em que resolvemos participar numa mostra de arte louzanense.



A Parábola do meteorito



Toda a cidade havia sido evacuada.
Vagarosamente, no seio da multidão que circundava o concelho, arrastava-se um vulto de feições cadavéricas e precocemente envelhecidas. Alienado pelo desgaste insone do pensamento descontínuo observava o Nada, aquele nada que habita no ponto de fuga do infinito e das memórias dissociadas da lógica e da realidade.

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