Em sequência perguntei," Mas afinal e o céu? Eu sou católico de batismo, não pratico, mas se for boa pessoa tenho direito ao céu, não é? Partindo das palavras de um teólogo, "O céu é um sitio onde, para sempre, teremos amor, harmonia, bem estar e todos os nossos desejos serão realizados". É esse então o céu para todos os católicos. Mas...os meus desejos serão iguais aos desejos de todos os católicos? Eu, no céu, quero ter mar, um barco para navegar, ouvir Bob Marley, ter uma guitarra para tocar, ter futebol e Benfica e muita erva para fumar. Mereço-o. Fui perdoado de todos os meus pecados pelos intermediários de Deus na Terra. Perdoado por diáconos, por padres, por Bispos etc. Por isso quando chegar ás portas do céu, Deus terá um papel meramente administrativo. Provávelmente far-me-á um relatório dos pecadilhos mas já estou previamente absolvido de todos eles porque ele já os conhece muito bem e deu direitos aos "mestres" terrenos atrás referidos para me deixar entrar, porque através do perdão destes, estou imaculado. Deverá por isso colocar um carimbo no relatório e dizer," Entra! Eis o céu, a partir daqui todos os teus desejos serão realizados, quais são?." Mas nem isso ele me deve perguntar, pois ele sabe tudo sobre mim e sobre todas as almas que a Terra habitaram. Mas, e os outros que tal como eu vão também para o céu? Pode haver alguém que prefira ter, sei lá, dez mulheres para amar. E essas mulheres que ele pretende no seu desejo, não terão elas desejos a desejar? Sim, porque elas também estão no céu. Escolheram elas aquele homem para dividir entre as dez? Alguma delas o pretendeu amar pela eternidade do céu? Alguma delas o pretendeu sequer? E quando lá chegar o Brad Pitt?
E no céu, se posso escolher, quero ter ao meu lado o Salazar? Porque o Salazar teve cerimónias fúnebres, era um católico devoto e foi perdoado de todos os seus pecados. Vou, no céu, ter ao meu lado o Ditador? Não o desejo! Tenho direito a um céu onde não conste tal personagem, assim como outros terão direito ao céu sem que a minha presença se faça sentir. Como é que funciona então? O céu é compartimentado? Cada um tem o seu pedaço infinito de céu? Ou o céu é andarmos todos vestidos de veludos brancos a apanhar florzinhas de pés descalços carregadinhos de pureza e paz de espírito como carneirinhos cheios de harmonia interior? A fazer o quê? Isso para mim não é céu. Eu não vou andar vestidinho de branco no meio de verdes campos a ir, juntamente com todos, para lado rigorosamente nenhum com muita harmonia e muita paz e muito sossego. Isso não sou eu! E eu quero pertencer ao céu, porque sendo perdoado dos meus pecados é para lá que eu vou e é lá que os meus desejos serão todos realizados. Como fazer então? E eu lá no céu quando estiver a ver o Benfica, por exemplo, contra o sporting, e o Benfica perder, vou depois andar harmónico, feliz e em paz de espírito a apanhar florzinhas? Não! Garanto que não vou! Isso não sou eu! E no céu, eu quero ser eu! Desenrasquem-se! Que eu, embora não praticante, sou batizado, não tive pecados de monta, fui ouvido algumas vezes em confissão e perdoado. Agora quero o meu direito ao céu."
Óscar Dinis

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